Pedro Ricardo
Oxalá Cante com Tempo


Pedro Ricardo regressa com um novo projeto de canções, onde a escrita encontra interpretações delicadas de duas vozes portuguesas: António Zambujo e Ana Margarida Prado.
 

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Depois do álbum Sopram Bons Ventos (Soundway Records, 2023), Ricardo sentiu que era tempo de escrever. Se até então as letras surgiram quase por acaso, moldadas por palavras improvisadas em função de ritmos e melodias, este projecto, antes pelo contrário, começou na leitura de poetas portugueses como Ary dos Santos, passando só depois para o papel num primeiro gesto consciente de escrita. “Nunca tive uma ligação muito próxima à poesia”, admite. “Mas desta vez senti essa necessidade.”

Musicalmente, Ricardo encontrou no universo brasileiro da canção de autor o seu ponto de partida. No início de 2025, mudou-se temporariamente para o Rio de Janeiro, com a primeira parte do projeto concluída e os primeiros textos e melodias da segunda parte em mãos. “Nos primeiros três meses, fui só eu e a guitarra”, recorda Ricardo. “Nos três meses seguintes, foram noites na estrada, em autocarros gelados, substituindo o sono pelos mesmos discos de sempre: o homónimo de Francis Hime, a Missa Breve de Edu Lobo e, como sempre, Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, de José Mário Branco.” Para Ricardo, estas lições de auto expressão através da canção, da composição e do arranjo foram profundamente marcantes.

E assim, pela primeira vez, Ricardo escreveu de facto: não apenas para a voz, mas também para as flautas e as cordas, pensando desde o início nos intérpretes - a violoncelista Carolina Viana, os flautistas Gil Silva e Edu Moreno, bem como os cantores António Zambujo e Ana Margarida Prado. E claro, reinterpretou estas contribuições à sua maneira, através dos traços eletrônicos característicos da sua produção.

O resultado é um conjunto de faixas intenso e surpreendente, ao mesmo tempo familiar e imediatamente intemporal, que enfrenta de frente os meios e os motivos presentes nos seus trabalhos anteriores e cruzando, como sempre, jazz, eletrónica e a música popular brasileira e portuguesa.

Olhando em frente, o projeto, que Ricardo sentiu desde cedo que fazia sentido lançar em duplo vinil de 7”, através da sua própria editora, Hear, Sense and Feel e com capas do artista paulistano Allan Gandhi, funciona como um prelúdio para o seu segundo álbum. O músico continua a aprofundar estas experiências de escrita e de arranjo instrumental e espacial, incluindo da sua própria voz. “É curioso: apesar de estas canções serem maioritariamente canções de amor, e de me terem surgido com muita força, dou por mim a rir quando as canto, ainda não percebi bem de onde vem tanta tristeza”, diz Ricardo a rir enquanto reflete. “Mas sou português existe aqui qualquer coisa de saudade.” 

E como canta numa das canções, oxalá cante com tempo.



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Biografia

A obra do produtor e compositor português Pedro Ricardo é marcada pela fusão. Enquanto músico, depois do lançamento do seu álbum de estreia Sopram Bons Ventos (2023, Soundway Records), continua a cruzar géneros, tempos e universos. Destaca-se o seu ultimo projecto desenvolvido com duas das mais relevantes vozes do fado português, António Zambujo e Ana Margarida Prado (Oxalá Cante com Tempo, 2026, Hear, Sense and Feel Records). Enquanto produtor, os lançamentos que assinou ao longo dos anos em editoras como a Extended Records, a 1980Lyfers, a Wolf Music e a sua própria Pedro’s House revelam uma abordagem ampla e em constante transformação à música eletrónica, enraizada no folk e na melodia. Como DJ, conhecido por arriscar nas suas escolhas musicais, leva para a pista de dança uma sensação de liberdade e intensidade, onde o jazz dialoga com o house e o techno, sempre ancorados numa tradição soulful. Enquanto performer, os seus concertos desdobram-se de forma dinâmica entre música para cinema, sets eletrónicos e a guitarra no contexto do Pedro Ricardo Trio.